quarta-feira, 30 de março de 2011

Quando uma pessoa passa a existir? Quando ela é notada. Essa mulher na minha frente, que lê sua revista, não existia até agora. E demorou alguns segundos na verdade, para ela existir completamente, porque há poucos segundos atrás o que existiam eram seus dedos, com suas unhas meticulosamente cuidadas, e bem pintadas. Ela começou segurando a revista, depois eu percebi seus ombros, sua blusa, pescoço e seu rosto. Afastei meu campo de visão e ela passou a existir inteira para mim. Fosse eu mais ingênuo, gritaria: “Achei!”, ou reivindicaria a descoberta dela. Explico: ela me fez sentir como aquele homem que passa horas dentro de um balde de madeira, dias e dias, apenas procurando um pedaço de terra. Terra! Algo que ele via todo dia, ou melhor, nem via, porque não dava importância. E isto, esse desejo de encontrar aquilo que ele sempre teve, até não ter mais, se torna mais que sua meta, sua esperança. Seu destino. Sua vida, porque não? Eu me senti assim, quando eu a vi. Queria ter gritado: “Mulher a vista!”, mas não era só uma mulher. Como aquele homem não queria só uma terra, qualquer terra. Ela era a mulher que eu procurei por todo o oceano da minha vida. Descobri que estava remando atrás dela durante anos. Mas o problema ainda nem começou, porque até agora, só ela existe. Para eu existir, ela terá que me notar. Sem tirar os olhos dela eu revejo com minha mente minhas roupas, tento perceber se meu perfume está bom, tento ler o que está escrito na capa da revista para saber se consigo conversar com ela sobre algo, e após esses minutos de preparação ouço meu nome. Eu sou o próximo a ser atendido no consultório. Finjo que não é comigo e espero desistirem de mim. Eu não quero que ela me perceba aqui. Ninguém quer conhecer seu futuro cônjuge sabendo que ele é um doente. Aguardo um instante e saio. Fico pensando que nas minhas alternativas, e concluo que deveria ter ficado para esperar pelo nome dela. Começo a planejar algo como me jogar na frente do carro dela, para ser atropelado e ela cuidar de mim. E então eu percebo. Eu definitivamente percebo, e começo a existir! Como um completo idiota.

3 comentários:

  1. Idiota? Nunca! Beijos

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  2. Eu acho que você desenha com as palavras porque sempre vejo e sinto!

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